Diário de uma mãe estragada #1

Para começar, estou atrasada a mais de um ano. Há meses venho ensaiando escrever neste diário. Parecia certo, dias atrás, eu toda empenhada com caneta e papel. Ledo engano. Qual mãe não pode se valer do papel de mãe para esses desvios de tempo?

Hoje eu me senti péssima. E não era péssima em estado de saúde, senti-me péssima pessoa. Meu dia começou com o “pé esquerdo” e dentro de mim um sentimento de revolta e antipatia. Não era da minha vontade que isso permanecesse. Esse tipo de sentimento traz atraso, desgasta a energia tão necessária que preciso para cuidar da minha filha. Exige tanto.

O lado bom é que identifiquei a causa, pude desviar a minha atenção disso para que não crescesse. O lado que você alimenta é o que mais ganha força. Apesar desse contratempo, consegui fazer o que eu tinha que fazer. Ah, tenho aprendido muito com a virtude da ordem, inclusive é o nome de um livro que me deu umas boas bofetadas na cara.

Desde que me tornei mãe, sinto que perdi um pouco ou muito da vergonha. A maternidade revela que a gente não deve se importar com o mundo alheio, isso pouco fará na hora de colocar sua filha pra dormir ou mudar a frauda suja. Na verdade, revela muito mais que isso, você ganha um senso sobrenatural de perceber o que vale a pena dar importância ou não.

Hoje meu dia foi 50% bom e 50% mais ou menos. O que me traz a sensação de que falhei, gastei metade do dia com coisas insignificantes. Parte, ou quase tudo, desses 50% bom se deve a minha filha, o mundo pode estar o caos, mas sentir seus pequenos braços me envolver com um amor inconfundível não tem preço.

Ainda agora, trocando sua frauda antes de dormir, eu estava chateada e com leve choro querendo sair, ela percebeu, aquietou-se, oulhou pra mim e baubuceou:- chora não! Por favor! – Senti-me constrangida. Envergonhada de estar daquele jeito diante de um serzinho tão puro e cheio de amor. Retomei a compostura, fomos para o quarto e pus-me a niná-la. Qual música quer que eu cante, minha filha? – A do patinho.

Assim termina o meu dia. Ainda não acabou porque cá estou eu a escrever neste diário. Mas isso será assunto para amanhã!


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Comentários

Uma resposta para “Diário de uma mãe estragada #1”

  1. Avatar de Marília Laura
    Marília Laura

    Você é uma poetisa, escreve como ninguém. É tão gostoso ler seus contos e crônicas, envolve a gente! Amo. ❤️

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